
Estratégia & Marca
A Vogue pode ter um novo líder, mas a próxima geração de formadores de opinião está construindo seus próprios impérios de nicho. Entenda a migração da influência visual para a autoridade textual.
Há alguns dias, uma postagem da Byrdie no Instagram capturou perfeitamente uma mudança tectônica que venho observando na forma como consumimos influência e curadoria de moda. O texto dizia: "A Vogue pode ter acabado de nomear um novo líder, mas a próxima geração de formadores de tendências pode estar atrás de um muro de pagamento."
Essa provocação não é apenas uma frase de efeito para gerar engajamento (embora tenha gerado muito, com comentários celebrando nomes como Isabel Slone e outras vozes independentes). É o sintoma de uma transição profunda no ecossistema de criadores de conteúdo: a migração da influência puramente visual das redes sociais para a autoridade textual e curatorial das newsletters.
Se nos últimos dez anos o jogo foi dominado por algoritmos que premiavam a estética, o volume e a viralidade efêmera, o cenário atual aponta para uma fadiga desse modelo. O Substack emergiu não apenas como uma plataforma de publicação, mas como o novo "cool place" onde a verdadeira influência está sendo forjada — e monetizada diretamente, sem intermediários.
Para entender por que nomes como Emily Sundberg, Biz Sherbert, Lakyn Carlton e Emilia Petrarca estão construindo comunidades tão engajadas no Substack, precisamos olhar para o que está faltando nas plataformas tradicionais.
O Instagram e o TikTok tornaram-se praças públicas lotadas, onde todos gritam ao mesmo tempo e o algoritmo decide quem ganha o megafone por 15 segundos. A curadoria de moda e estilo de vida nessas redes frequentemente se resume a hauls (compras em grande quantidade), get ready with me e tendências que duram menos de uma semana (alguém lembra do Mob Wife aesthetic?).
O Substack oferece o antídoto para essa superficialidade: intencionalidade. Quando um usuário decide assinar uma newsletter — e especialmente quando decide pagar por ela —, ele está fazendo um investimento consciente de tempo e atenção. Ele não está rolando o feed passivamente; ele está convidando aquela voz para sua caixa de entrada, um dos últimos espaços digitais não mediados por algoritmos de recomendação.
A comparação com a Vogue feita pela Byrdie é precisa. Tradicionalmente, as grandes publicações detinham o monopólio da validação. Ser "aprovado" por Anna Wintour ou figurar nas páginas de uma revista de prestígio era o passaporte definitivo para a relevância na indústria da moda.
Hoje, essa validação está sendo descentralizada e democratizada. Os novos tastemakers (formadores de tendências) não precisam do selo de aprovação de uma editora tradicional. Eles constroem sua própria autoridade através de:
Essa independência tem um preço, literalmente. O "muro de pagamento" (paywall) não é apenas um modelo de negócios; é um filtro de qualidade. Ele separa o público casual dos verdadeiros entusiastas, criando comunidades menores, porém infinitamente mais engajadas e valiosas.
Se a influência está migrando para espaços mais fechados e baseados em texto, como as marcas de moda e lifestyle devem adaptar suas estratégias? O playbook de "enviar produto para influenciador e pedir um Story" está perdendo eficácia.
Aqui estão três táticas para navegar nesta nova era da influência:
A verdadeira influência muitas vezes acontece onde você não pode rastreá-la facilmente com ferramentas de social listening. Ela acontece nas newsletters, em grupos de WhatsApp e em comunidades fechadas no Discord. Identifique quem são os escritores e curadores que sua audiência lê religiosamente. Uma menção orgânica em uma newsletter respeitada do Substack frequentemente converte mais (e com um público mais qualificado) do que um post patrocinado no Instagram.
Quando você colabora com um tastemaker que escreve, o formato deve respeitar o meio. Em vez de exigir uma foto com o produto segurado ao lado do rosto, patrocine uma edição da newsletter ou forneça acesso exclusivo (entrevistas com o designer, bastidores do processo criativo) que o escritor possa transformar em uma narrativa rica para seus assinantes.
Se o texto longo e a curadoria aprofundada estão em alta, as marcas também precisam se tornar editoras. O que sua marca tem a dizer além de "compre nossos produtos"? Construir uma newsletter própria, com curadoria real e insights de mercado (não apenas promoções), é uma forma de reter a atenção do seu público em um canal que você controla, imune às mudanças de algoritmo do Instagram ou do TikTok.
A transição da influência visual para a autoridade curatorial não significa o fim do Instagram ou do TikTok. Significa apenas que o topo da pirâmide de influência — o espaço onde as tendências são analisadas, validadas e ganham contexto — está se mudando para um lugar mais silencioso, focado e, sim, frequentemente pago.
A próxima geração de líderes da moda não está apenas vestindo as roupas; eles estão escrevendo sobre elas com uma profundidade que o feed não comporta. E o mercado, finalmente, está prestando atenção.
Tania Vicente
Trend Intelligence & Digital Strategist



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