Vivemos a era da hiperconectividade, dos dados abundantes e da velocidade como padrão. Mas, e se a próxima grande vantagem competitiva não estiver em prever o futuro, e sim em observar melhor o presente?
Essa foi a provocação central do autor e futurista Rohit Bhargava no palco do SXSW 2025. Com um histórico de consultoria para líderes da NASA, Disney e LinkedIn, ele compartilhou sete princípios que formam o que ele chama de pensamento não óbvio — um modelo mental que combina escuta ativa, observação periférica e coragem para conectar o que ainda não foi conectado.
Mais que uma metodologia, o que ele entrega é uma postura estratégica: olhar onde ninguém está olhando, fazer as perguntas que ninguém está fazendo e transformar intuições em experimentos de impacto real.
A seguir, destrincho os sete segredos que podem — e devem — ser aplicados em qualquer marca, projeto ou vida criativa.
1. Domine a Arte de Ver o Invisível
Prever o futuro não é mágica. É disciplina.
As maiores tendências não surgem de breaking news, mas de sinais fracos, comportamentos emergentes e desvios sutis da norma que muitos ignoram.
Ver o invisível é sobre se treinar para perceber o não dito:
- Um comportamento recorrente nas bordas da cultura.
- Um uso inusitado de um produto.
- Um hábito que parece pequeno, mas carrega fricções sociais.
“As tendências surgem quando enxergamos o que não está nos holofotes.”
Essa habilidade é essencial para quem trabalha com marca, cultura ou inovação. Quem domina isso, sai do óbvio — e cria o novo.
2. Recolha Histórias, Não Apenas Dados
Estamos viciados em métricas. Vivemos em dashboards. Mas como entender verdadeiramente um comportamento humano olhando apenas para o que é quantificável?
Bhargava propõe uma ruptura: dados explicam o “o quê”, mas as histórias revelam o “por quê”.
Isso significa:
- Priorizar entrevistas, conversas, narrativas.
- Buscar insights emocionais além de padrões estatísticos.
- Ler entrelinhas, não só relatórios.
“O dado responde ‘o que’, mas só a história explica o ‘por quê’.”
No mundo das marcas, isso é ouro. Porque pessoas compram com emoção, e números sozinhos não constroem desejo.
3. Valide o que Ninguém Está Validando
A obsessão pelo que é trending muitas vezes nos cega para o que é relevante.
Bhargava chama atenção para o risco de uma fé cega na IA e nos padrões automatizados. Ele aponta para a importância da observação periférica — aquilo que ainda não ganhou atenção, mas pulsa no underground comportamental.
Exemplo?
A volta dos cadernos, das cartas, do silêncio. Uma espécie de contra-tendência ao excesso de estímulo digital.
“Cartas e silêncio são o novo luxo.”
Validar o que ninguém está medindo é onde a inovação cultural se fortalece. Quem vê isso antes, lidera.
4. Use Empatia como Tecnologia
Bhargava afirma: quanto mais tecnológicos nos tornamos, mais humanos precisamos ser.
Em tempos de IA generativa, automação e algoritmos preditivos, o diferencial será a sensibilidade — ouvir com atenção, cuidar com intenção, criar com compaixão.
Empatia não é “soft skill”. É uma infraestrutura estratégica.
“Não podemos terceirizar o cuidado para algoritmos.”
E essa frase é um manifesto. No branding, na educação, no marketing ou na gestão de comunidades, empatia será a próxima disrupção silenciosa.
5. Conecte as Pontas Desconexas
As ideias realmente inovadoras geralmente não vêm de especialistas de um único setor, mas de quem transita entre universos distintos.
Bhargava defende a interdisciplinaridade radical:
- Moda + ciência.
- Tecnologia + poesia.
- Negócios + filosofia.
É na fricção entre mundos que o novo nasce. Criar valor não é inventar do zero, mas recombinar com elegância o que ainda ninguém juntou.
“Muitas tendências surgem da interseção entre setores não relacionados.”
Seja um conector de mundos. Essa é a estética do futuro.
6. Seja Curioso Profissional
Curiosidade não é só uma virtude pessoal — é uma habilidade estratégica.
Bhargava propõe que desenvolvamos uma curiosidade metódica, quase como um músculo de inovação.
Ele sugere praticar “curadoria criativa”, ou seja, colecionar referências, observar contextos e fazer boas perguntas com disciplina.
“Empresas contratam menos por habilidades técnicas e mais pela capacidade de fazer boas perguntas.”
Perguntar bem é o primeiro passo para pensar melhor. E quem pensa melhor, constrói soluções mais potentes.
7. Traduza Intuições em Protótipos
A intuição é uma forma de inteligência. Mas, para gerar impacto, ela precisa ganhar corpo, ser testada, validada, refinada.
Bhargava afirma que toda tendência precisa virar ação, mesmo que imperfeita.
Ele compartilha frameworks para tirar ideias da cabeça e levá-las à experimentação concreta.
“Seu instinto pode ser sua primeira versão beta.”
No mundo das marcas, isso se traduz em MVPs estratégicos, campanhas-testes, microações de escuta. Testar rápido, aprender mais rápido.
Conclusão: o futuro não é um mistério — é um padrão emergente
Na fala final, Bhargava resume tudo o que apresentou com uma frase que deveria estar colada na parede de qualquer líder criativo:
“Você não precisa prever o futuro. Só precisa observar melhor o presente.”
Observar com profundidade. Conectar com intenção. Agir com coragem.
Pensar de forma não óbvia pode não ser confortável — mas é o caminho mais direto para criar algo que realmente importa.